Fertilizantes em 2026: cenário internacional reforça debate sobre fontes nacionais de nutrientes
A dependência brasileira de fertilizantes importados voltou ao centro das discussões do setor em 2026 diante das restrições de oferta, dos conflitos internacionais e dos impactos logísticos que vêm pressionando o mercado. O cenário amplia a atenção para estratégias capazes de reduzir a vulnerabilidade da agricultura brasileira às oscilações externas, entre elas o desenvolvimento e o aproveitamento de fontes nacionais de nutrientes.
Dados apresentados pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) indicam que cerca de 80% dos fertilizantes utilizados pela agricultura brasileira dependem de importações. A questão ganhou destaque durante aula magna realizada pela Cátedra Luiz de Queiroz, em setembro, com a participação do pesquisador Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e do professor Paulo Sergio Pavinato, do Departamento de Ciência do Solo da Esalq.
O debate ocorre em um momento de instabilidade no comércio internacional. Segundo a Esalq, a continuidade do conflito no Irã e os impactos sobre a circulação pelo Estreito de Ormuz têm reflexos no mercado de fertilizantes. Um terço dos fertilizantes comercializados mundialmente passa pela região, de acordo com informações divulgadas pela instituição.
A Revista Cultivar também aponta que as restrições internacionais têm levado compradores brasileiros a antecipar negociações e buscar produtos já nacionalizados, novos fornecedores e fontes alternativas de nutrientes. O movimento ocorre em meio à menor oferta de determinados insumos, limitações de crédito e riscos logísticos.
DEPENDÊNCIA EXTERNA AMPLIA EXPOSIÇÃO DO BRASIL
A participação elevada das importações torna o abastecimento brasileiro sensível a acontecimentos ocorridos longe das áreas produtoras do país.
Além das dificuldades relacionadas ao Oriente Médio, a Esalq relata que interrupções nas exportações de países fornecedores têm contribuído para pressionar os preços internacionais. Heitor Cantarella destacou que esse contexto exige planejamento por parte de empresas e produtores, principalmente em um período de início de safra.
Dados citados pela Revista Cultivar mostram ainda que as entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro recuaram 5,4% no primeiro semestre de 2026. Foram 19,02 milhões de toneladas entre janeiro e junho, diante de 20,11 milhões de toneladas registradas no mesmo período de 2025, segundo levantamento da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).
O mercado de fertilizantes fosfatados aparece entre os pontos de atenção. A publicação relata menor possibilidade de substituição de fontes de fósforo e pressão sobre os custos de produtos fosfatados diante das condições atuais do mercado internacional.
PLANEJAMENTO E EFICIÊNCIA NO USO DE NUTRIENTES
Diante desse cenário, Cantarella ressaltou durante a aula magna da Cátedra Luiz de Queiroz a importância de práticas já disponíveis para aumentar a eficiência no uso de fertilizantes.
Entre as recomendações estão análise de solo, calagem, iniciativas relacionadas à economia circular, uso de bioinsumos e adoção do conceito dos 4Cs, baseado na utilização da fonte certa, na dose certa, no momento certo e no local certo.
A discussão sobre fertilizantes sustentáveis também integra as atividades desenvolvidas pela Cátedra Luiz de Queiroz. No ciclo 2024/2026, dedicado às fontes sustentáveis de fertilizantes, a instituição destacou a fragilidade do suprimento brasileiro e a importância da pesquisa, desenvolvimento e inovação para ampliar alternativas de nutrição de plantas no país.
FONTES NACIONAIS GANHAM ESPAÇO NO DEBATE
O atual cenário internacional reforça uma discussão que vem avançando no Brasil: a necessidade de ampliar a disponibilidade de nutrientes de origem nacional e fortalecer estratégias capazes de reduzir a exposição do setor produtivo às oscilações externas.
Esse movimento envolve pesquisa, desenvolvimento tecnológico, melhor aproveitamento dos recursos disponíveis no território brasileiro e uso eficiente dos fertilizantes, considerando as características dos solos, das culturas e de cada sistema produtivo.
A busca por maior segurança no fornecimento de nutrientes também tem avançado no âmbito das políticas públicas. Em setembro de 2026, entrou em vigor o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), iniciativa voltada ao fortalecimento da produção nacional e à redução da dependência externa do setor.
Para uma agricultura da dimensão da brasileira, o cenário de 2026 evidencia a importância de ampliar as alternativas disponíveis ao produtor e fortalecer uma cadeia nacional de fertilizantes apoiada em pesquisa, tecnologia, eficiência agronômica e disponibilidade de nutrientes.
Fontes: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e Revista Cultivar.
Pesquisa propõe classificação mais precisa dos agrominerais silicáticos
Estudo busca diferenciar materiais a partir de características químicas relacionadas aos efeitos agronômicos e pode contribuir para o aprimoramento da regulamentação no Brasil
Uma pesquisa desenvolvida com participação da Embrapa propõe uma nova forma de classificar os agrominerais silicáticos utilizados na agricultura. O estudo busca estabelecer critérios capazes de representar com maior precisão as diferenças entre esses materiais e seus potenciais efeitos agronômicos.
A proposta parte de um ponto relevante para o avanço do uso dos agrominerais no país: rochas silicáticas podem apresentar características químicas distintas e, consequentemente, comportamentos diferentes quando utilizadas para fins agrícolas. Reuni-las em categorias muito amplas pode dificultar uma avaliação mais precisa de suas propriedades.
O trabalho apresentado pela Embrapa avança na caracterização desses materiais ao considerar parâmetros químicos relacionados à sua atuação agronômica. A classificação pode contribuir tanto para o desenvolvimento das pesquisas quanto para discussões relacionadas aos critérios utilizados na regulamentação desse tipo de insumo.
DIFERENÇAS ENTRE OS AGROMINERAIS
Os agrominerais silicáticos vêm sendo estudados no Brasil como materiais com potencial de utilização na agricultura. Sua composição mineralógica e química, no entanto, varia conforme o tipo de rocha, o que torna a caracterização uma etapa importante para compreender sua aplicação e seus possíveis efeitos no solo.
A pesquisa reforça justamente a necessidade de reconhecer essa diversidade. Em vez de avaliar os materiais apenas a partir de uma denominação abrangente, a proposta procura agrupá-los segundo características que permitam uma diferenciação mais consistente.
Esse detalhamento pode auxiliar pesquisadores e profissionais na avaliação do potencial agronômico de diferentes materiais e ampliar a base científica disponível para o setor.
CLASSIFICAÇÃO PODE CONTRIBUIR PARA A REGULAMENTAÇÃO
Além da aplicação científica, o estudo aponta possíveis contribuições para o ambiente regulatório brasileiro.
A definição de parâmetros mais específicos pode oferecer subsídios técnicos para o aprimoramento dos critérios empregados na caracterização e classificação dos agrominerais silicáticos. A pesquisa, contudo, não representa por si só uma alteração das regras atualmente vigentes.
Esse ponto é relevante porque a ampliação do conhecimento sobre composição, propriedades e comportamento agronômico permite que a discussão regulatória seja sustentada por evidências científicas cada vez mais detalhadas.
PESQUISA AMPLIA CONHECIMENTO SOBRE FONTES NACIONAIS
O desenvolvimento de pesquisas sobre agrominerais ocorre em um contexto de busca por maior conhecimento e aproveitamento de recursos disponíveis no território brasileiro para a agricultura.
A caracterização adequada desses materiais é parte desse processo. Identificar suas particularidades permite avaliar com maior rigor seu potencial de uso e estabelecer parâmetros técnicos compatíveis com as diferentes características encontradas nas rochas silicáticas.
A nova proposta de classificação acrescenta, assim, uma ferramenta ao avanço das pesquisas sobre agrominerais no Brasil e abre espaço para o aperfeiçoamento técnico das discussões relacionadas à sua utilização e regulamentação.
Confea atualiza Manual da Rochagem e dos Remineralizadores
O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) disponibilizou uma versão atualizada do Manual da Rochagem e dos Remineralizadores, publicação que reúne fundamentos técnicos, científicos e normativos relacionados ao uso de rochas moídas e remineralizadores na agricultura brasileira.
Elaborado no âmbito da Comissão Temática de Recursos Hídricos e Minerais (CTRHM) do Confea, o documento tem autoria da geóloga Suzi Huff Theodoro e aborda desde os conceitos relacionados à rochagem até os procedimentos para registro de remineralizadores e a atuação dos profissionais envolvidos nessa cadeia.
A publicação também apresenta dados atualizados sobre a presença dos remineralizadores no país. O mapa incluído no manual reúne a localização desses produtos até julho de 2025, com atualização realizada em agosto do mesmo ano, oferecendo um panorama de sua distribuição pelo território brasileiro.
ROCHAGEM E REMINERALIZAÇÃO DOS SOLOS
De acordo com o manual, a rochagem pode ser compreendida como uma alternativa tecnológica de manejo da fertilidade baseada na adição de determinados tipos de rochas moídas ao solo. A prática busca repor minerais e nutrientes perdidos ao longo do tempo por processos naturais ou pelo uso dos solos.
O documento dedica uma seção específica aos remineralizadores de solo e às características das rochas que podem ser utilizadas para essa finalidade. Também aborda as particularidades dos solos tropicais brasileiros e reúne resultados associados ao uso desses materiais em diferentes sistemas produtivos.
Entre os efeitos diretos apresentados no manual estão o aumento dos teores de macro e micronutrientes no solo, a remineralização, alterações no pH e na capacidade de troca catiônica (CTC), a redução da toxidez por alumínio e a diversificação da oferta de nutrientes. O documento também relaciona o uso dos remineralizadores à capacidade de retenção de água e à conservação da umidade do solo.
LEGISLAÇÃO E REGISTRO DE REMINERALIZADORES
Outro eixo da publicação é o marco regulatório brasileiro. O manual apresenta um capítulo dedicado ao arcabouço normativo dos remineralizadores, incluindo a Lei nº 12.890/2013 e a Instrução Normativa nº 5/2016 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A publicação também detalha aspectos relacionados ao registro de novos remineralizadores.
Ao reunir essas informações, o material aproxima em uma mesma publicação os fundamentos científicos da rochagem, a caracterização dos materiais utilizados e as exigências que integram a regulamentação dessa categoria de insumos no Brasil.
DESAFIOS PARA AMPLIAR O USO NO BRASIL
O manual dedica ainda espaço aos desafios para ampliar a utilização dos remineralizadores no país. Entre os pontos elencados estão a expansão da oferta de diferentes tipos de produtos, o fortalecimento da assistência técnica, a ampliação dos investimentos em pesquisa e a capacitação de profissionais.
O documento também cita a necessidade de políticas públicas, mecanismos de crédito e fortalecimento de mercados regionais, além de apontar os remineralizadores como insumos com potencial estratégico para o Brasil.
Nesse processo, o Confea destaca a participação de profissionais como geólogos, engenheiros de minas e agrônomos e ressalta o papel do Sistema Confea/Crea na regulamentação, orientação e fiscalização das atividades profissionais relacionadas à cadeia da rochagem.
A atualização do manual consolida em um único documento referências técnicas, científicas e regulatórias para profissionais, pesquisadores, produtores e demais agentes interessados na rochagem e no uso de remineralizadores na agricultura brasileira.